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É com grande prazer que o Instituto Memória Gráfica Brasileira _ iMGB traz a público o acervo de Aloisio Magalhães. Artista, designer, homem de ação e pensamento, Aloisio foi um humanista em pleno século XX. Além de ter criado sistemas de identidade visual com os quais convivemos até hoje, conceitos como o de patrimônio imaterial, hoje amplamente difundidos, tiveram origem em suas reflexões.

Pintor por formação prática e advogado, por formação acadêmica, Aloisio tornou-se designer em 1960 e à atividade dedicou com afinco 15 anos da sua curta vida. Adiante, transmutou-se em político, sem voto, responsável pelos rumos da cultura no Brasil. Sendo pintor, designer ou formulador de políticas públicas, Aloisio foi, como sempre dizia, um “projetivo” – alguém inteiramente consciente do que e do como projetar. Sabia que para realizar algo no mundo, havia que traçar planos, estabelecer metas, desenhar um caminho, ainda que este caminho pudesse ser afetado parcialmente pelo acaso e pelas circunstâncias. Frente a acidentes de percurso, sabia aceitá-los e utilizá-los, como ninguém, incorporando-os ao seu processo projetivo. Viveu de 1927, quando nasceu no Recife, em Pernambuco, a 1982, quando teve sua vida subitamente ceifada por um violento acidente vascular cerebral, em Veneza, Itália.

O site está dividido em cinco partes. A primeira, aloisio, trata de sua trajetória pessoal, sua vida familiar, suas viagens e contatos internacionais. A segunda, o artista, atenta para a produção artística e suas ideias a respeito das artes. A terceira, experimentos gráficos, reúne um conjunto de trabalhos que revela sua constante inquietação em relação à representação e aos objetos gráficos. A quarta, o designer, apresenta sua vasta produção no campo do design. E, por fim, uma quinta parte, o pensamento cultural, apresenta os resultados de projetos e documentos que retratam suas ideias para o trato dos bens culturais no país.

Pretendemos promover sua contínua renovação, incorporando constantemente novos elementos que venham a contribuir para a compreensão das ideias, da trajetória e da ação pública de Aloisio Magalhães.

PROJETO ACERVO ALOISIO MAGALHÃES

idealização Julieta Sobral e
João de Souza Leite

coordenação geral
Julieta Sobral

coordenação de pesquisa
João de Souza Leite

digitalização Julieta Sobral,
Ana Dias e Carolina Lins

tratamento de imagens
Carolina Lins

textos
João de Souza Leite

projeto gráfico do site
estudio malabares

direção de arte
Julieta Sobral e Ana Dias

lay-out das telas
Anna Paula Morgado

programação
Sean Hamill

inserção de conteúdo
Carolina Lins

making off
Bernardo Krivochein

realização
instituto memória gráfica brasileira

patrocínio secretaria de estado de cultura do rio de janeiro


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Aloisio

Nascido em 1927 em Pernambuco, Aloisio cresceu em meio à vida intelectual e política do Recife. Seu pai, Aggeu Sérgio de Godoy Magalhães, médico e cientista, ao tomar conhecimento da indicação do irmão Agamenon Magalhães, nomeado interventor no estado por Getúlio Vargas durante o Estado Novo, pediu exoneração do cargo que ocupava, diretor da Faculdade de Medicina. Em família, Aloisio foi criado em ambiente que conjugava duas vertentes. Entre as coisas da sensibilidade providas pela mãe, dona Henriqueta, e a sobriedade e constituição sertaneja pela herança paterna, convivia com personagens como o sociólogo Gilberto Freyre e o poeta Ascenso Ferreira, frequentadores da casa.

Ao cursar a Faculdade de Direito, pólo aglutinador da intelectualidade da época, Aloisio iniciou-se nas artes pela criação de figurinos e cenografia para o Teatro do Estudante de Pernambuco, de que participava ativamente convivendo com colegas e amigos, entre eles Hermilo Borba Filho, Gastão de Holanda e Ariano Suassuna.
Logo após o término do curso de direito, foi-se para a Europa por dois anos, onde estudou gravura, visitou museus e vivenciou a vida européia do pós-guerra. Em seu retorno ao Recife, com os amigos José Laurenio de Melo, Gastão de Holanda e Orlando da Costa Ferreira, organizou O Gráfico Amador, grupo voltado ao desenho, edição e produção de pequenas tiragens de livros realizados tipograficamente na oficina no andar logo abaixo de seu atelier, na rua Amélia 415.
Em viagem aos Estados Unidos, em 1957, a oportunidade do design apresentou-se com mais clareza ao conhecer Eugene Feldman, artista gráfico experimental. Em sua gráfica – Falcon Press – e na escola de artes do Philadelphia Museum, Aloisio percebeu a necessidade de projeto gerada pelas técnicas de reprodução das grandes tiragens.
De volta ao Brasil, logo abandonou a atividade de pintor. Estabeleceu-se como designer distanciando-se da produção artística convencional, usufruída em espaços privados. Pelo design, com o sentido do moderno, propunha-se a integrar sua arte à vida cotidiana. E em sua nova prática, alinhou-se parcialmente ao estilo internacional do design modernista.
A partir de 1960, Aloisio Magalhães montou a primeira versão do seu escritório de design, que viria a ser o maior do país ao longo dos anos 1970, e participou da criação do primeiro curso brasileiro de desenho industrial em nível superior, na Escola Superior de Desenho Industrial, Rio de Janeiro.
Os símbolos criados por ele e sua equipe se tornaram comuns na paisagem urbana brasileira durante algumas décadas. Em 1965, a conquista do primeiro prêmio em concurso público para a criação do símbolo do IV Centenário da Cidade do Rio de Janeiro proporcionou uma intensa manifestação popular. Em seguida, seu desenho para as cédulas do Cruzeiro, moeda corrente brasileira, demonstrou a amplitude que sua ação no campo do design poderia alcançar.
Em 1975, uma conversa com o então Ministro da Indústria e Comércio Severo Gomes e seu amigo o embaixador Wladimir Murtinho, provocou seu avanço sobre outros campos. Ali teve origem a proposta de uma instituição, na verdade um programa de investigação sobre quais seriam as referências brasileiras possíveis para propiciar um desenvolvimento harmonioso entre o social e o econômico.
O Centro Nacional de Referência Cultural – CNRC, criado por Aloisio naquela ocassião, foi um programa de pesquisa derivado de um princípio: olhar a realidade brasileira em sua característica própria, nunca a partir de uma abstração. Com essas ideias, em 1979 assumiu a direção do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN – do Ministério da Educação e Cultura (MEC). E logo colocou em prática o desenho que pensava para a administração da cultura no país. Nesse percurso, criou a Secretaria da Cultura do Ministério, e foi um virtual ministro da cultura do país. Já na reta final da longa série de governos militares, sua presença no MEC criou uma indiscutível renovação de ares na área da cultura, que a partir daquele momento voltava a receber a atenção devida.
Ainda ocupando este cargo, ao participar de um colóquio em Veneza, Aloisio Magalhães veio a falecer abruptamente, em junho de 1982.

Aloisio, artista plástico
O artista Aloisio


Aloisio Magalhães iniciou-se nas artes plásticas através de registros casuais de pequenas cenas urbanas, de Olinda e Recife. Certamente influenciado por seu conterrâneo Cícero Dias, a quem saudou em 1948 por aquela que é considerada a primeira exposição de arte abstrata no Brasil, montada na Faculdade de Direito, Aloisio orientou-se posteriormente a uma pintura não figurativa. No entanto, como pintor, não chegou a se encantar pela concisão estruturada da arte concreta do sul do país nos anos 1950, a ele interessavam mais as formas e as cores da sua terra natal.
Em 1951, com uma bolsa conquistada junto à embaixada francesa, partiu para Paris, onde se demorou por dois anos, até 1953. A viagem propiciou a vivência comum da vida européia – os cafés, a comida francesa, o vinho –, fomentou o contato com a produção mais contemporânea de arte, com a vida cultural, e o defrontou com questões de ordem filosófica e política de um modo ainda não experimentado.
Em sua volta ao Brasil, mais determinado em sua pintura, Aloisio começou a conquistar visibilidade no território nacional ao expor seguidamente na Bahia, no Rio e São Paulo, onde participou de algumas edições da Bienal Internacional de Arte recentemente inaugurada.
Durante exposição coletiva no Museu de Arte Moderna de São Paulo em 1956, Aloisio foi contemplado com outra bolsa, dessa vez concedida pelo governo norte-americano. Adquirida pelo MoMA (Museum of Modern Art) de Nova York, em exposição por várias cidades americanas, sua pintura apresentava uma vigorosa força expressiva à qual Aloisio, entretanto,
não viria dar seguimento no campo específico das artes plásticas embora,
ainda por alguns anos, continuasse a pintar. Em palestra no Recife, em 1958, já anunciava seu interesse por outras formas de expressão. Ainda assim, em 1960, integrou a delegação brasileira à 30ª Bienal de Veneza e, em 1961, realizou sua última exposição de pinturas na Petite Galerie, no Rio de Janeiro.
Mas ainda haveria de retomar sua atividade de artista plástico, produzindo em 1970 originais montagens de cartões postais, nomeadas Cartemas por seu amigo o filólogo Antonio Houaiss, e em 1973 uma séries de aquarelas e gravuras, estas últimas uma evidente homenagem ao holandês M.C. Escher. Nessa época, Aloisio estava fascinado pela ideia de oposição complementar e não excludente entre opostos, pelo contraditório e por sua consequente potência. O jogo representacional existente nessas gravuras explora intensamente o tema.
Seu último trabalho de natureza plástica foi um álbum de litogravuras sobre Olinda realizado no ano em que veio a falecer, realizado como argumento para a apresentação da candidatura da cidade para a Lista do Patrimônio Mundial da Unesco. Neste conjunto de gravuras, Aloisio posicionou-se com o olhar de um viajante do tempo passado, demonstrando a persistência das características de Olinda no tempo.
Sua obra plástica cobre grande variedade técnica. Fosse aquarela, gravura ou pintura, o desenho sempre se fez presente como base, tanto na representação figurativa quanto em sua busca por abstração.
A experimentação gráfica
Uma linguagem experimental

Desde seus tempos na Faculdade de Direito do Recife, Aloisio Magalhães estava ligado às artes, quando integrou o Teatro do Estudante de Pernambuco como cenógrafo e mestre de bonecos e deu início à sua produção plástica.
Em 1953, de volta ao Recife após temporada européia, Aloisio participou d’O Gráfico Amador, pequena oficina gráfica dedicada à produção de livros em séries limitadas. Ali, embora sua participação direta fosse descontínua, Aloisio desenvolveu significativos experimentos gráficos em obras editoriais. Ora como ilustrador, ora como criador integral da obra, cada vez tornava-se mais evidente sua inclinação pela linguagem gráfica e pela conjugação entre letra e imagem sobre a página impressa.
De modo geral, as obras ali produzidas eram fruto do trabalho coletivo dos amigos José Laurênio de Melo, Gastão de Holanda, Orlando da Costa Ferreira e ele mesmo, embora sua participação fosse cíclica, dada sua iniciação pelos circuitos de exibição de sua obra artística. Resulta daí que alguns livros seus são resultado de sua única e exclusiva responsabilidade, chegando a não ser considerados por alguns pesquisadores como integrantes da coleção d’O Gráfico Amador. É o caso do livro desenhado por ele e em seguida ilustrado pela poesia de João Cabral de Melo Neto – Aniki Bobo – dada a inversão das tarefas. É o caso de Improvisação gráfica, totalmente por ele concebido e realizado, assim como Pregão Turístico do Recife, uma homenagem a João Cabral de Melo Neto.
Ao aterrissar em Nova York em 1956, como bolsista do governo americano, Aloisio Magalhães encontrou os grandes marcos da arquitetura moderna da cidade em plena construção. Foi nessa América que Aloisio veio a defrontar-se com uma nova experiência. Circulando pelas escolas de design, se aproximando do significado da Bauhaus para o ensino de artes, observando as transformações urbanas, em contato com os museus, vivenciou o design, assumindo-o como possível incorporação das artes à vida cotidiana.
Na Filadélfia, conheceu Eugene Feldman, artista gráfico e impressor. Ali formou-se uma parceria que seria responsável por brilhante aventura na criação gráfica. No entanto, a tecnologia de impressão por eles utilizada – offset – demandava um novo modo de trabalho. Frente ao evidente hiato então estabelecido entre conceituação e execução, Aloisio aos poucos compreendeu que fazia-se necessário projetar antecipadamente o objeto da sua criação artística, fazia-se necessária uma atitude de design. Na Falcon Press, misto de atelier, oficina de trabalho e ponto de encontro de artistas, estudantes e amigos, Gene e Aloisio desenvolveram trabalhos excepcionais como os dois livros Doorway to Portuguese e Doorway to Brasilia.
O objeto impresso se manteve como uma constante questão para Aloisio Magalhães, ao longo de seu curto período de vida. A concepção de um livro, seu conteúdo, a experiência tátil em folheá-lo, o modo de organizar a informação, todas essas foram questões tratadas com frequencia por ele. No entanto, Aloisio também se interessava pela textura proporcionada pela impressão ou pelo desenho. Seu passeio por diferentes modos de gravura em sua fase inicial de artista – xilografia, litogravura, água-forte – já indicava essa curiosidade. Assim, por diversas vezes, a superfície do desenho ou de uma área impressa foi o objeto direto da sua criação autoral. Nesse sentido, Aloisio Magalhães se fez autor de diferentes livros que se realizam plena e exclusivamente pela imagem, como experimento plástico e como reflexão a respeito das técnicas de desenho e reprodução: Viva 1, A informação esquartejada, A Topographical Analysis of a Printed Surface.





Aloisio Magalhães, designer

Aloisio se transfigura definitivamente em designer em 1960, agora preocupado com a perspectiva do outro. O que importa é o usuário, a circulação dos símbolos, o uso da imagem para fins precisos e inequívocos. A partir da primeira versão do seu escritório – o MNP, Magalhães, Noronha e Pontual – Aloisio Magalhães dedicou-se sobretudo ao desenho de símbolos comerciais e institucionais. Nessa primeira formação, associou-se a Artur Licio Pontual, arquiteto pernambucano, amigo seu desde o Recife, e a Luiz Fernando Noronha, técnico em edificações. Seu propósito inicial era oferecer um vasto leque de serviços – desde o projeto de arquitetura a atividades de construção civil, desde a criação de símbolos a projetos de sistemas de identidade visual mais amplos.
Em 1963, já como escritório exclusivamente de design, centrado em sua própria pessoa, deu-se seu primeiro contato com o grande público – Aloisio vencia o concurso para a criação do símbolo do IV Centenário do Rio de Janeiro. Em 1967, essa experiência foi alçada ao patamar nacional ao ganhar o concurso para o desenho do dinheiro brasileiro, assunto a que dedicou uma década. Em 1971, desenvolveu o projeto de identidade visual para a Petrobrás, cobrindo todas as suas situações de comunicação visual e desenho industrial. Em 1976, coordenou um projeto de design para a cidade do Rio de Janeiro – a identidade visual do município, desde sua comunicação visual administrativa ao mobiliário urbano e sinalização para toda a cidade. Estava traçado um percurso – do desenho da unidade simbólica da identidade visual a grandes e complexos sistemas de objetos de todo tipo. Aloisio, enfim, se realizava em uma nova atividade, o design.
A essa altura, o escritório já havia se transformado em PVDI, Programação Visual Desenho Industrial Ltda, pela inclusão de seus antigos parceiros como parceiros em nova formação societária: Joaquim Redig de Campos e Rafael Rodrigues.
De 1960 a 1979, quando vai se afastar definitivamente da prática cotidiana do escritório para dedicar-se com exclusividade ao seu projeto em prol da cultura brasileira, Aloisio Magalhães foi a voz mais presente na divulgação dessa atividade que ganhou seu primeiro contorno no Brasil dos anos 60. Nenhuma oportunidade era perdida e, a qualquer momento, seu pensamento e sua preocupação por um projeto orientado às peculiaridades do nosso contexto se faziam presentes na imprensa. Nessa função, designer, Aloisio Magalhães conquistou uma inequívoca visibilidade, incorporando um papel mítico em relação à nova profissão. Não foi por menos que em 1998 foi instaurado o Dia Nacional do Design em comemoração à sua data de nascimento, 5 de Novembro.
A cultura como objeto de ação política

Impactado pela imensa repercussão popular proporcionada pelo símbolo do IV Centenário do Rio de Janeiro seguida pelo alcance comunicativo do desenho das cédulas do Cruzeiro, Aloisio Magalhães quis ampliar seu horizonte de ação, se auto atribuindo um papel político diante da questão cultural do país. Em seu entendimento, elementos da cultura deveriam ser constantemente incorporados à ação governamental no planejamento econômico e social. Para que isso acontecesse, era necessário fomentar uma maior consciência a respeito dos nossos traços culturais. Assim, em 1975 configurou uma nova ação frente a seu recorrente objeto de interesse – a cultura brasileira. Ao longo dos anos seguintes até seu súbito falecimento em 1982, Aloisio não poupou esforços na defesa das suas contundentes ideias.